Dissertação de mestrado analisa visões sobre o Chá Hoasca na mídia brasileira

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Com formação como relações públicas e sócia do Núcleo Flor Encantadora dede 2010, Jussara Aparecida Santos de Assis defendeu este ano a dissertação “Representações jornalísticas da ayahuasca”, no programa de pós-graduação em Comunicação Social da PUC-MG. Nesta entrevista, ela compartilha sua pesquisa sobre como dois veículos de comunicação abordaram o Chá Hoasca em suas matérias ao longo de mais de uma década, e de que forma a visão da mídia sobre o Chá vêm se transformando.

 

Blog — O que levou você a optar por pesquisar este tema?

Jussara Aparecida Santos de Assis — O que me levou inicialmente foi realmente um interesse pessoal, intrínseco. Antes de chegar na União do Vegetal, eu li algumas coisas a respeito do Chá. E, quando conheci de fato, não vi uma coerência entre o que eu tinha encontrado antes e o que eu de fato experimentei. E essa pesquisa inicial foi feita majoritariamente através dos conteúdos que circulavam na mídia. Esses conteúdos formaram uma ideia, um imaginário que eu tinha a respeito da Hoasca. E a partir do momento que eu bebi o Chá e conheci a instituição, vi que existiam diferenças. E por muito tempo guardei esse estranhamento, esse questionamento.

Quando tive interesse em fazer uma pesquisa de mestrado, lembrei dessa pergunta: quais as representações midiáticas  da Hoasca foram feitas ao longo do tempo, e se essas representações eram coerentes ou não. Por isso a pesquisa: para produzir conhecimento acadêmico e sair do achismo.

 

Blog — De que forma que você estruturou a pesquisa?

Jussara — Nós coletamos 185 matérias que saíram entre 2006 e 2019 no portal de notícias G1 e na edição impressa da Folha de São Paulo. Destas, selecionamos 139 matérias. O objetivo era entender as representações midiáticas da Hoasca, e representações são algo móvel, não têm nada de fixo. Então, buscamos identificar quais foram os tipos de representações recorrentes nas matérias publicadas naqueles veículos. Vimos que algumas eram frequentes, e subdividimos as matérias em quatro categorias.

Uma categoria traz a perspectiva da Hoasca como uma bebida indígena. É uma visão cultural, que permitia uma associação com uma exotização associada aos indígenas. Outro elemento nesta categoria muito recorrente era o uso da Hoasca por celebridades. Isso chamava muita a atenção da mídia, e permitia categorizar essas religiões hoasqueiras com ideais contraculturais.

Outra visão é a do uso do Chá pelas instituições religiosas, que a gente chamou de uso religioso. São três religiões, porém circularam mais notícias falando a respeito do Santo Daime e da União do Vegetal. Uma terceira categoria é a que busca relacionar o Chá com as drogas. E por fim, havia uma representação da Hoasca associada às pesquisas científicas. Essa foi uma categoria que surgiu mais recentemente.

 

Blog — A que conclusões  você chegou a partir desse levantamento?

Jussara — Percebemos que em certas categorias o uso do Chá era apresentado com algo mais legítimo pelos veículos, e em outras nem tanto. No caso da categoria cultural indígena/artístico, o Chá é apresentado muito como uma experiência. Não se destaca o lado ritualístico. Por exemplo, houve uma série de matérias na Folha de São Paulo, intitulada “Sebastião Salgado na Amazônia”. Em nenhum momento, o [fotógrafo] Sebastião Salgado fala da experiência dele. O texto fala do Chá e dos atrativos da cultura indígena. E a Hoasca aparece associada a uma festa para preservação de uma cultura, ou para obter recursos e preservar a floresta. Nunca se apresenta o Chá usado pelos indígenas na forma de medicina, ou de uso religioso, e sim por essa visão do exótico.

Outra categoria onde o uso do Chá é apresentado como muito legítimo é a das pesquisas científicas. Pelo volume, percebi que essa categoria cresceu muito mais recentemente, de dois anos pra cá, principalmente no jornal Folha de São Paulo. Nessa visão, a Hoasca é afirmada e legitimada como um remédio com potencial para cura de doenças como depressão e ansiedade.

A mídia vem atualizando, ano a ano, os resultados destas pesquisas. Para nós, isso mostra o interesse em legitimar essa perspectiva do consumo do Chá. Porque pudemos ver que, quando a bebida era apresentada na perspectiva de um elemento religioso, como um sacramento, havia questionamentos quanto a possibilidade de seu uso pelas religiões hoasqueiras. Então no contexto religioso, o uso do Chá é questionável, mas dentro do laboratório, ele é válido?

 

Blog — Quem faz esses questionamentos?

Jussara — Esse questionamento é feito pela mídia. A mídia apresenta, como argumento de autoridade, depoimentos de pesquisadores, médicos, cientistas, declarando que o Chá teria potencial para causar algum tipo de distúrbio, e que o uso deveria ser repensado. No entanto, também diz que se o Chá for administrado numa dose adequada, como se fosse um remédio, seria um uso válido.

No finalzinho da dissertação eu cito um pesquisador, Patrick Charaudeau, que diz que existe um certo confronto entre o saber científico e o saber de experiência. Porque o indígena sempre afirmou que a Hoasca era medicina, uma medicina da floresta. Porém, precisa vir um saber científico para validar esse saber da experiência. Então existe aí um confronto; para o uso do Chá ser validado, precisa desse saber científico. E a gente vê isso com com várias plantas, não só o Chá. Há várias outras medicinas que precisam dessa comprovação para que seu uso possa ser aceito. Mas estamos falando de um sacramento, que é usado ritualisticamente não só por povos indígenas, mas por instituições religiosas.

 

Blog — A que conclusões você chegou?

Jussara — O que mais nos chamou a atenção foram essas perspectivas onde o uso é visto como mais legítimo. E também o fato de que essas representações não são fixas, né? Elas são móveis. Não há uma conclusão de fato fechada, pelo contrário. A pesquisa mostrou que, em várias épocas e momentos, as representações foram se alterando. Então hoje existe essa representação mais voltada para a validação do Chá, não só do Chá mas de suas propriedades, como uma alternativa medicinal viável. Mas amanhã podem emergir outras.

A nossa pesquisa foi mais uma leitura de cenário, do que ocorreu. Ela tem muito mais uma intenção de abrir o diálogo e de chamar a comunidade, e todos os pesquisadores, a olharem também, através dessa perspectiva da comunicação e do diálogo, para o que é preciso para que se busquem representações que sejam coerentes com a realidade que cada instituição vive.

 

Blog — Muitas vezes as pessoas que bebem o Chá no contexto religioso têm a impressão que a mídia só fala da Hoasca quando há algum elemento de sensacionalismo ou exotismo envolvido. Você concorda com essa, com essa visão, com essa crítica?

Jussara — Eu tinha essa ideia também. Hoje, não mais. Eu tive acesso ao volume considerável de matérias em que o Chá é visto por uma perspectiva positiva, como algo que tem benefícios para a saúde física, mental e social. E também o crescimento das pesquisas sobre o Chá colabora para desconstruir este imaginário [ligado ao sensacionalismo].

Eu vejo que há um esforço das próprias instituições em produzir conteúdo, em produzir conhecimento sobre si, pra confrontar todo esse material [sensacionalista]. Por exemplo, quando a União do Vegetal cria um blog em que ela publiciza as ações que são feitas pelo Centro, e cria um site que reúne um banco de dados com todas as pesquisas a respeito desse Chá, ela está confrontando todas essas matérias que, de uma certa forma, buscam o sensacionalismo. Então, ela produz conhecimento científico, já que é esse conhecimento que é validado e aceito socialmente, e colabora com a discussão.

Eu vejo que as próprias instituições religiosas já não estão mais aceitando esse lugar que lhes é proposto. Pelo contrário, [a UDV] está aí produzindo conhecimento e colocando a serviço da comunidade científica, acadêmica e da sociedade de modo geral. Então, hoje, acho que quando uma pessoa pesquisa o Chá na internet pode encontrar conteúdos bem interessantes, que divergem dessa ideia de que só existem matérias sensacionalistas. Acho que já mudou.

 

Blog — E com relação a como a mídia apresenta a UDV você observou alguma coisa?

Jussara — Sim. Pelo que percebi do conteúdo que analisei, a União do Vegetal tem uma reputação diferente. Em algumas matérias, ela é citada como tendo uma certa ordem, uma certa hierarquização, um volume maior de regras, e sendo uma religião mais discreta. Então, nesse sentido, é um ponto de vista positivo.

Mas, em algumas matérias, vi uma falta de diferenciação maior, porque não se aprofundam. Citam as religiões como se fossem semelhantes às vezes simplesmente porque usam o Chá. E não é assim, cada uma tem suas características próprias.

 

Para ler o estudo na íntegra, clique aqui.

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