Pesquisa sobre desidratação do Mariri e da Chacrona pode facilitar futuros preparos fora do Brasil

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Sócia no Núcleo Menino Deus (AM), Ordilena Ferreira de Miranda desenvolve uma sólida carreira como cientista profissional na área de botânica, e há 16 anos trabalha na coordenação de Biodiversidade do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), um dos principais centros de pesquisa do país. Como parte do seu doutorado em fisiologia e bioquímica de plantas, cursado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP, em Piracicaba, ela apresentou a tese “Avaliação da variação morfológica, anatômica e fitoquímica de Banisteriopsis caapi (Spruce ex Griseb.) C.v. Morton e Psychotria viridis Ruiz & Pav em diferentes ambientes, teor de alcaloides e citotoxicidade do chá Ayahuasca”. O estudo investigou uma forma de desidratar o Mariri e a Chacrona, com o intuito de facilitar o transporte da planta, buscando atender a irmandade da UDV que reside em outros países. Na entrevista a seguir, ela conta como nasceu a idéia da pesquisa, e de que forma a desidratação pode beneficiar o trabalho com o Mariri em nossa religião.

 

Blog — Como surgiu a ideia de desenvolver uma forma para desidratar o Mariri e a chacrona?

Ordilena Ferreira de Miranda — Em 2015, fui convidada para participar em uma mensagem de Mariri na cidade de Presidente Figueiredo, AM, da qual participaram irmãos do Núcleo Santa Fé (EUA). Havia jovens, adultos e idosos participando na mensagem, e duas pessoas me chamaram atenção. Uma era o pai do mestre Tai, o irmão Timothy, que tinha à época mais de 70 anos, e uma jovem de aproximadamente uns 23 anos. Observei a alegria e a disposição daqueles irmãos. O irmão Timothy não chegou até o reinado do Mariri, mas estava feliz por estar na floresta. A jovem, por sua vez, trouxe um feixe de Mariri sorrindo. Percebi que alguns irmãos homens se dispuseram a carregar o feixe em seu lugar, mas ela se recusou a entregar. Naquele momento, percebi o quanto no Brasil, principalmente na Amazônia, somos merecedores de um bem sem igual. E pensei que deveríamos encontrar um jeito de compartilhar esse benefício com nossos irmãos do exterior.

Compartilhei meu pensamento com o m. Júlio Alves (do Núcleo Menino Deus) e o CDC Carlos Memória da Paz (Núcleo m. Vicente Marques). O m. Alves me falou da necessidade de nossos irmãos no exterior. Aliás, ainda naquela mensagem marcamos alguns pés de Mariri que, mais tarde, foram usados nesta pesquisa. Com entusiasmo levei o assunto ao M. Roberto Evangelista, à época Mestre Assistente Geral que ficou feliz com a ideia e me autorizou a iniciar o processo de escrita do projeto.

O projeto foi tomando forma, e durante o processo de escrita fiquei sabendo que o m. Aloísio, da Central de Plantadores e Zeladores de Mariri e Chacrona, em Roraima, já havia realizado uma desidratação empírica de Mariri, e que o m. Júlio Alves tinha o pensamento de dar continuidade a este trabalho. Então, convidei m. Aloisio, m. Alves e m. Evandro (que me convidou para participar da mensagem de Mariri) para serem parceiros na pesquisa.

Quero fazer meu reconhecimento da participação do  mestre Júlio Alves (atualmente mestre representante do Núcleo Menino Deus) e da irmã Raquel de Medeiros (Núcleo Princesa Sama), que são pessoas bem especiais para esse trabalho. Mestre Alves coordenou toda a logística da pesquisa dentro da UDV e acompanhou as coletas  de campo (as mensagens de Mariri). Ele também  acompanhou todos os preparos e avaliações do chá feito com plantas desidratadas que ocorreram durante sessões do Vegetal como parte da pesquisa. O mestre Alves é uma pessoa de valor, com o coração e pensamento positivo no êxito desse trabalho, que não mediu esforços em nenhum momento. A irmã Raquel, doutora em floresta, deu sua valorosa contribuição nas coletas de campo  e acompanhou as sessões para análises do Vegetal preparado com plantas desidratadas.

Com a equipe de base do projeto se formando, iniciamos a pesquisa no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Um ano após termos iniciado a pesquisa, o projeto foi transformado em minha tese de doutorado que foi desenvolvido na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em parceria com a Universidade de Campinas, e também sendo mantida a parceria com o INPA.

 

 Blog — Como funciona o processo de desidratação?

Ordilena — A desidratação é o processo mais usual e fundamental para conservação de plantas. Ela é usada no mundo inteiro, principalmente para ervas condimentares e plantas medicinais. Porém, cada espécie de planta tem suas exigências durante o processo, de acordo com o produto alvo e o tipo de uso. Dependendo dos parâmetros aplicados, a desidratação pode favorecer a perda exacerbada de compostos bioativos ou disponibiliza-los para atender o uso a que se destina.

Especificamente para a etapa de desidratação de Mariri e Chacrona, nós buscamos padronizar parâmetros de desidratação com qualidade física e fitoquímica. Esses parâmetros são específicos para cada espécie. Se realizada dentro de parâmetros corretos, a desidratação pode atender a legislação de transporte de insumo vegetal, minimizar em até 75% os custos de transporte pela redução de peso do produto, possibilitar o acesso ao Mariri e a Chacrona durante o ano todo a todas as regiões, e evitar contaminações microbiológicas.

 

M. Alves durante coleta de mariri para o experimento de desidratação.

Blog — Não é possível enviar o Mariri e a Chacrona para outros países em seu estado natural?

Ordilena — O transporte de plantas entre países e biomas diferentes responde a um conjunto de normas e regras estabelecidas pelas leis ambientais e fitossanitárias que impossibilita o envio in natura de Mariri e Chacrona, bem como de diversas plantas. Além disso, as características ambientais da maioria dos demais países onde a UDV já tem núcleos não são favoráveis ao cultivo de Chacrona e Mariri. Nesses casos, a desidratação é fundamental para legalizar o envio das nossas Plantas Sagradas para preparos de Vegetal na América do Norte, Europa e Oceania.

Blog — De que forma a pesquisa foi feita, e onde?

Ordilena — A pesquisa vem sendo desenvolvida há cinco anos. Nós usamos planta coletadas em duas regiões que possuem características ambientais distintas na Amazônia Ocidental brasileira. A primeira área de coleta está localizada em Presidente Figueiredo, AM. A segunda está na Central de Plantadores e Zeladores de Mariri e Chacrona, no Estado de Roraima.

Para os resultados obtidos até esta data, realizamos diversas análises. Algumas focaram nas relações das plantas com seu ambiente e o modo como a ambiente influencia nas características delas e na produção dos compostos ativos do Mariri e da Chacrona. Outras análises se voltaram para a anatomia, descrevendo as estruturas e as modificações internas das plantas forçadas pelo ambiente. Também investigamos o local de armazenamento dos compostos ativos no caule do Mariri e na folha da Chacrona, quantificamos a produção dos princípios ativos e avaliamos a citotoxicicidade, e isto nos permitiu verificar a segurança do consumo do Chá preparado a partir de plantas in natura e desidratadas. A citotoxicidade é uma etapa importante dessa pesquisa, onde expomos células humanas in vitro a amostras de Vegetal com diferentes teores dos compostos ativos, e mesmo com quantidades elevadas de compostos ativos o Vegetal preparado com plantas desidratadas se mostrou seguro para uso humano.

 

Blog — Que outras possibilidades o estudo abre?

Ordilena — Os resultados mostram como nossas Plantas Sagradas têm uma relação direta com as características hídricas do ambiente. Esses dados podem ser utilizados para auxiliar as atividades dos plantios, dando melhores condições de produção dos compostos bioativos (o DMT, na Chacrona, e a Harmina, a Harmalina e a Tetrahidroharmina no Mariri) e possibilitando plantas com maior qualidade fitoquímica.

Além disso, entender que as características do ambiente, bem como a época em que é feita a coleta interferem na quantidade de princípio ativo nas plantas, abre possibilidade para um calendário de coletas com base na região e nas estações do ano. E conhecer a localização dos princípios ativos nas plantas nos permite melhorar o aproveitamento destes princípios ativos no momento do preparo do Chá Hoasca.

Porém, o maior diferencial deste trabalho é sua contribuição com a expansão da UDV, beneficiando nossos irmãos que já estão e os que ainda vem chegar com a possibilidade de prepararem o Chá Hoasca em seus núcleos, em qualquer região ao redor do planeta, e vivenciarem, lá onde estiverem, o ritual de um preparo de vegetal, a produção do nosso sacramento.

Para ler a tese, clique aqui.

Para ler o artigo “Assessment of environmental condition and drying process of the plants on the concentration of alkaloids and cytotoxicity of traditional Ayahuasca Tea”, clique aqui.

Para ler o artigo “Influence of environment on the leaf morpho-anatomy and histochemical of the ayahuasca leaf: Populations cultivated in extra-Amazonian regions”, que é parte da pesquisa de Ordilena, clique aqui.

 

8 Comentários em “Pesquisa sobre desidratação do Mariri e da Chacrona pode facilitar futuros preparos fora do Brasil”

  1. Querida amiga e irmã Ordilena, muito bom saber um pouco mais a respeito da sua pesquisa e do intuito de auxiliar mais a nossa irmandade. Felicidades e sucesso nos dias vindouros !

  2. Bom dia.
    Que bom, que está já sendo realizado este movimento, assim poderemos auxiliar irmãos,em todos os continentes.
    Parabéns.
    Um abraço.
    Ozair Costa da Silva

  3. Boa tarde

    Achei interessante o assunto. A tese de doutorado está disponível em algum site?

  4. Um trabalho científico de excelência!!
    Muitas conclusões importantes.
    Parabéns aos envolvidos.

  5. Que maravilha, nossos pesquisadores internos mostrando para que vieram… produção de ciência é arte … gratidão. Sou pesquisador na área de saúde mental e ainda quero participar de um estudo na área relacional… Hoasca e saúde mental.

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