Chuvas e fertilidade do solo afetam variabilidade, crescimento e quantidade de princípio ativo no Mariri, mostra pesquisa

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A possível influência de fatores como fertilidade do solo, incidência de luz e chuvas sobre o desenvolvimento do Mariri Tucunacá foi o tema da dissertação de mestrado de Mirza Lago Bezerra junto ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). O trabalho de Mirza, que é engenheira florestal de formação e sócia da UDV, contou com o apoio da Diretoria Geral e do Departamento de Plantio e Meio Ambiente através dos recursos oriundos da Faixa Adicional.  O trabalho, intitulado “Efeito da disponibilidade de recursos do ambiente na variabilidade intraespecífica do cipó Banisteriopsis caapi” foi defendido em 2020 e está disponível para acesso público aqui.

Mirza conta que a grande diversidade que pode ser observada em diversas estruturas dos pés de Mariri, incluindo suas folhas e sua madeira, geram debates entre os estudiosos do reino vegetal. Há quem sustente que aquilo que os cientistas identificam como Banisteriopsis caapi seja na verdade mais de uma espécie.  Porém, há outras possibilidades de explicação. Será que as diferentes condições ambientais em que cada pé brota e cresce poderiam explicar tamanha variabilidade?  Ou ela é basicamente a expressão do DNA que possuem? Com o intuito de dar início à investigação, ela e seus orientadores, Juliana Schietti de Almeida e Charles Roland Clement, conceberam um estudo que procurou avaliar se fatores como a incidência de luz sobre as folhas, a fertilidade do solo onde está a planta ou a quantidade de chuvas que recaem sobre ele anualmente podem desempenhar um efeito relevante sobre o as variações observadas no Mariri.

Mirza Bezerra

O estudo se destaca por ter optado por uma extensa área de pesquisa, que atravessava a Amazônia do norte ao sudeste, com o objetivo de contemplar condições ambientais e climáticas diversas.  Outro diferencial foi a decisão de trabalhar apenas com plantas nativas, isto é, que viviam no interior da floresta amazônica. Os desafios para coletar os dados foram muitos. Envolviam desde a coleta de amostras de solo em duas profundidades diferentes até coletas de amostras de folha e madeira do Mariri sobre as copas das árvores. Outra fonte utilizada foram os dados geradas por satélites,  que trouxeram informações sobre o regime de chuvas ao longo do ano e a incidência de radiação fotossinteticamente ativa, isto é, aquela parte do espectro luminosos que a planta emprega para realizar fotossíntese.

 

As amostras foram coletadas em 14 localidades, distribuídas entre os estados de Roraima, Amazonas, Acre e Rondônia. No total, foram colhidas amostras de 62 pés de Mariri, a maioria de Mariri Tucunacá, que terminou sendo o foco dos estudos. Destas, foram analisadas 53 plantas. “Na academia, houve quem duvidasse que fosse possível concluir no período de um mestrado uma pesquisa nesta escala. Mas com o apoio da DG, do DPMA e da irmandade do Centro o que parecia impossível tornou-se possível.”, diz a pesquisadora.

Equipe de coleta de campo de Presidente Figueiredo – AM.

As análises focaram 24 características das folhas e duas da madeira do Mariri, investigando seus aspectos morfológicos (isto é, ligados à forma e tamanho dos órgãos da planta), anatômicos (ligados à variação na forma e no tamanho de estruturas microscópicas) e fisiológicos (ligados à parte bioquímica). De maneira geral, as características analisadas se dividiam em dois grandes grupos: aquelas que estão ligadas à capacidade de crescimento e desenvolvimento da planta, e as que refletem sua capacidade de se defender da ação de herbívoros. No primeiro grupo estão incluindo, além de aspectos morfológicos e anatômicos, também os pigmentos fotossintéticos que a planta possui, assim como o conteúdo dos nutrientes encontrados nas folhas. Já o aspecto da capacidade de defesa se evidencia pelas análises químicas que mensuram a produção de substâncias chamadas polifenóis e alcaloides (a este grupo pertencem os princípios ativos da planta) e pelo número de glândulas e resistência à perfuração que as folhas possuem.

Folha do Mariri vista ao microscópio

A comparação das amostras revelou uma grande variabilidade nas características dos pés de Mariri nas diversas regiões, o que favoreceu as observações sobre o comportamento ecológico das plantas.

“Foi impressionante constatar, comparando os locais uns com os outros, o quanto as estruturas anatômicas variavam de acordo com a disponibilidade de água das chuvas em cada região”, diz Mirza.  Nos lugares onde havia relativamente menos chuva, as folhas apresentaram maior densidade de veias, o que favorece o aumento da sua eficiência e segurança no transporte de água. Também aumentaram a densidade de uma estrutura chamada estômato, e reduziram o seu tamanho. Isso permite à planta abrir e fechar os estômatos mais rapidamente, perdendo menos água enquanto captura mais oxigênio. “Essas mudanças são de grande importância para melhoria da eficiência do uso da água pela planta, especialmente nestes ambientes onde a água é disponível em relativa menor quantidade”, diz a pesquisadora.

Nos ambientes onde a disponibilidade de nutrientes no solo era relativamente menor e  o acesso à água e luz era maior, as plantas apresentaram características mais ligadas ao crescimento lento, maior conteúdo de polifenóis totais e menor conteúdo de alcaloides.

Já nos locais onde havia um solo mais fértil, e relativa menor disponibilidade de água e luz, observou-se nos pés de Mariri maior investimento em características ligadas ao crescimento rápido e maior conteúdo de alcaloides.

Mirza ressalta que este ainda é um estudo bastante inicial e pioneiro sobre um tema complexo. Mas os dados que ela coletou já permitem sustentar algumas premissas básicas, além de apontar o caminho para futuras pesquisas. “Os resultados mostram como as condições ambientais onde o Mariri se desenvolve podem influenciar fortemente no seu crescimento e na quantidade de princípios ativos que a planta contém”, diz.

 

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